Música: Cálice (Gilberto Gil e Chico Buarque)
- 3 de mar. de 2017
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Cálice Chico Buarque Pai, afasta de mim esse cálice Pai, afasta de mim esse cálice Pai, afasta de mim esse cálice De vinho tinto de sangue
Pai, afasta de mim esse cálice Pai, afasta de mim esse cálice Pai, afasta de mim esse cálice De vinho tinto de sangue
Como beber dessa bebida amarga Tragar a dor, engolir a labuta Mesmo calada a boca, resta o peito Silêncio na cidade não se escuta De que me vale ser filho da santa Melhor seria ser filho da outra Outra realidade menos morta Tanta mentira, tanta força bruta
Pai, afasta de mim esse cálice Pai, afasta de mim esse cálice Pai, afasta de mim esse cálice De vinho tinto de sangue
Como é difícil acordar calado Se na calada da noite eu me dano Quero lançar um grito desumano Que é uma maneira de ser escutado Esse silêncio todo me atordoa Atordoado eu permaneço atento Na arquibancada pra a qualquer momento Ver emergir o monstro da lagoa
Pai, afasta de mim esse cálice Pai, afasta de mim esse cálice Pai, afasta de mim esse cálice De vinho tinto de sangue
De muito gorda a porca já não anda De muito usada a faca já não corta Como é difícil, pai, abrir a porta Essa palavra presa na garganta Esse pileque homérico no mundo De que adianta ter boa vontade Mesmo calado o peito, resta a cuca Dos bêbados do centro da cidade
Pai, afasta de mim esse cálice Pai, afasta de mim esse cálice Pai, afasta de mim esse cálice De vinho tinto de sangue
Talvez o mundo não seja pequeno Nem seja a vida um fato consumado Quero inventar o meu próprio pecado Quero morrer do meu próprio veneno Quero perder de vez tua cabeça Minha cabeça perder teu juízo Quero cheirar fumaça de óleo diesel Me embriagar até que alguém me esqueça
A música ”Cálice” composição de Gil e Chico Buarque foi uma marco na história da música popular brasileira por retratar as mazelas período da ditadura militar. Com o objetivo de fugir da censura Chico Buarque utiliza a ambiguidade sonora do termo “Cálice”,para evidenciar a condição de repressão e censura que remete a forma verbal “Cale-se”, ao mesmo tempo que compara ao sofrimento social ao lamentar do Cristo no Calvário. A música busca dialogar com o público e mostrar a condição de repressão e censura tem a função de denunciar a situação de repressão ditatorial, critica o falso milagre econômico, questiona as dificuldades em aceitar passivamente a imposição militar e a dificuldade em romper com esse Regime político opressor.
Ao se escutar a música é perceptivel o tom melancólico e também um grito de socorro velado,um alerta. escondido entre metáforas, ao mesmo tempo é denuncia,um pedido de mudança em meio a mordaça. O sofrimento, a dor, o pesar exalam pelas notas musicais que são tristes, tocantes,remetem a angústia do momento, no tom e na melodia. Simplesmente, emocionante.
Durante o Festival de música Phono 73, na cidade de São Paulo no ano de 1973, Gilberto Gil e Chico Buarque tiveram a apresentação da recém lançada música “Cálice” interrompida pela censura. No video fica perceptível o tom de denúncia dos artistas e o corte abrupto do som logo após o momento em que eles cantam parte da música .Assista aqui:
FONTE:
CAROCHA, Maika Lois. A censura musical durante o regime militar (1964 – 1985), 2006. Disponível em <http://ojs.c3sl.ufpr.br/ojs/index.php/historia/article/view/7940>. Acesso em 16 de fevereiro de 2017.
HERRMAN, Bárbara Duarte Música E Censura na Ditadura Militar: O processo reflexivo entre música e política. Escola Superior de Propaganda e Marketing Graduação em Relações Internacionais, 2014. Disponível em: <http://www.academia.edu/8917848/M%C3%BAsica_e_Censura_na_Ditadura_Militar>
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